A Questão do Linux

Hackeando a Usenet, o leitor acabe encontrando assuntos interessantes sobre como a informática foi modelada para o que é hoje. Este artigo discorre sobre uma discussão ocorrida em 12 de dezembro de 1992, onde Linus Torvalds escreve sobre a grande questão do Linux (e não é nada sobre ele ser livre).

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Por: João Santana em 22/02/2008 | Blog: http://cibertecario.wordpress.com


Introdução



É interessante ler textos antigos de listas da USENET, onde o leitor acaba encontrando as questões que modelaram a informática para o que é hoje.

Na famosa comp.os.minix, onde nasceu o Linux (assim mesmo, como o Torvalds chama e como era chamado na época - procure as fontes), há um tópico de 12 de dezembro de 1992 intitulado "Is MINIX much better than LINUX?", onde um certo Stephen Schow pergunta por quê comprar o Minix quando ele pode ter o Linux de graça (graça, como em cerveja grátis).

A discussão, que deveria ser sobre o Linux como substituto do Minix, foi levado à ambigüidade do sistema ser gratuito, mas exigir que o usuário gaste com hardware. Vejamos o argumento.

O Argumento

Vincent Archer argumenta: "Penso que a questão no Linux não é que ele é de graça? Terei que gastar $150 para comprar uma placa 386. Ok. E aí?".

Qualquer pessoa, ao ter contato com o conceito de free software, pensa nele como "free as in free beer". É uma reação normal, nada místico ou relacionado ao desconhecimento de uma verdade universal. Apenas lendo sobre o assunto e conversando com pessoas que entendem o conceito pode quem tem esse contato inicial também entender o que ele significa.

Hoje, o inverso dessa questão do hardware perturba os usuários do Linux, que muitas vezes precisam trocar de hardware para ter maior compatibilidade do sistema. Além de questões "filosóficas", a incompatibilidade imediata com hardware mais recente ainda é uma das barreiras para a real adoção do Linux pelos usuários de computador - um assunto fora do escopo deste artigo.

O Contra-Argumento

À mensagem de Archer, Linus escreve esta resposta:

"Não, a questão do Linux não é que ele é gratuito, e nunca foi. Esta é uma das questões que se vê mais regularmente, já que é certamente algo que recebe a atenção da maioria das pessoas. Também é uma coisa que eu insisti na flamewar "Linux is obsolete", como algo que eu acho que o Minix *deveria* ter tido como uma de suas principais questões (...)."

"De fato, se quiser, você pode pagar por sua instalação de Linux: há pelo menos dois CD-ROMS disponíveis já contendo os fontes do Linux, e um terceiro parece estar sendo feito. (...) Não estou ganhando dinheiro com eles, mas isto não significa que eles estão dando o Linux por nada. E não me importo, porque 'de graça' não é principal questão, apenas um grande bônus."

"A *questão* com o Linux é que eu não tinha um bom SO na minha máquina (eu tive DOS e Minix, e minha definição de bom é obviamente diferente disto), então eu escrevi um. Torná-lo gratuitamente disponível foi uma decisão separada não diretamente conectada à sua concepção (...): graças a isso, ele é agora um sistema bem melhor do que poderia ser de outra maneira. Me permitiu ter bom feedback e teste do sistema, bem como patches para fazê-lo rodar melhor: o código SCSI, o código de rede e o novo e melhorado emulador matemático foram todos totalmente escritos por outros."

"Então enquanto você obtém o Linux de graça, a real razão para você *usá-lo* (e mesmo pagar por ele) é porque é um SO similar ao Unix danado de bom".

Conclusão

Linus já aplicava a idéia de software como algo compartilhado, de colaboração, mas ainda diferente do que a Free Software Foundation define como "free". Sozinho, certamente não teria a capacidade necessária para desenvolver todo um sistema operacional, e adotar um sistema compartilhado de desenvolvimento foi um dos fatores determinantes do sucesso do Linux, juntamente com a adoção da GPL.

O estado de "free" como gratuito não deveria desmerecer o Linux, porque ele se comportava em seu lançamento comprovadamente como uma versão mais aprimorada do sistema Unix-like mais utilizado em sua época, o Minix. A utilização dele não deveria ser motivada pelo fato de ser gratuito, mas sim por ser um bom sistema (bem diferente do que ocorre entre alguns linuxers hoje). E por ser um bom sistema, deveria motivar seus usuários a desenvolvê-lo. Esta é a grande questão do Linux, que deveria ser levada em consideração por todos os seus usuários.

Bibliografia

O texto original pode ser lido aqui.

   

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Comentários
[1] Comentário enviado por tenchi em 22/02/2008 - 10:41h

Ainda hoje há esta divergência entre o pensamento do Linus e o da FSF, com relação à filosofia.
O Linus nunca fez um sistema para ser "livre". Ele sempre acreditou no 'opensource' como um modelo de desenvolvimento melhor - onde todos podem colaborar -, por isso criou o Linux e outros softwares (git, por exemplo).

Gostei do artigo, e achei melhor a tradução "Unix danado de bom". Como seria isto no idioma original? ;-)

[2] Comentário enviado por leandrobs1984 em 22/02/2008 - 10:53h

?comentario= Parabéns pelo artigo librarian !. Realmente as pessoas ainda não entendem o fato de que o Linux é "opensource" e não "freeware", damos graças a Linus por ter tido a ideía maravilhosa de começar á desenvolver um SO onde muitos poderiam participar. "O linux é o que é hoje devido a isso !!"

[3] Comentário enviado por nicolo em 22/02/2008 - 10:55h

Caro autor: A concepção da FreeSoftware Foundation (Richard Stallman), não parece tão distante da concepção de Linus Torvald. Free like in Freedom (não como free beer). Por tras das duas concepções está a idéia de livre cooperação para o bem comum. Não quero polemizar, mas trata-se de um princípio filosófico religioso, talvez por isso tenha encontrado terreno fértil nos sentimentos. O nome mais adequado seria GNU-Linux, pois a concepção do GNU foi fundamental para o sucesso do Linux. Linus Torvald começou com o kernel para obter um sistema. O GNU começou com o ferramental e acessórios para acabar no kernel. Ainda não chegou lá totalmente, pois o Hurd, ainda que disponível não está "liberado" para uso geral.
O Debian apoiou-se nas duas vertentes e hospeda o Hurd em seu site onde se lê Debian Hurd.
Os "filósofos" americanos conjecturam que Linus Torvald não inventou um novo sistema, mas algo mais abrangente: Uma nova maneira de fazer informática.

[4] Comentário enviado por leandrorocker em 22/02/2008 - 13:46h

Essa discussão é clássica.
E em alguns pontos me lembra uma bela frase de José Saramago:
"A árvore da ciência tem um galho chamado riqueza e este só dá frutos venenosos"

[5] Comentário enviado por librarian em 22/02/2008 - 19:43h

tenchi:

Torvalds diz no texto que o Linux é um "pretty good unix-like OS".

[6] Comentário enviado por Teixeira em 22/02/2008 - 23:00h

É importante observar que na época em que foi feito o comentário sobre "ter de comprar uma placa 386", aqueles micros estavam acabando de chegar ao mercado. E o Linux - já naquela época - foi elaborado para trabalhar especificamente com máquinas a partir do 386, por causa de uma arquitetura mais aperfeiçoada, uma mudança de conceito. O processador 80386 era rigorosamente necessário ao funcionamento do Linux e servia-lhe como uma luva.

Hoje acontece o mesmo fenômeno (64 bits, dual core, bla, bla, bla) e continuaremos a ter de comprar novo hardware para rodar novo software, para, ao final, fazer mais-ou-menos as mesmas coisas que já fazíamos.

Mas hoje se reclama menos, e no meio de tudo isso, sempre aparece algo realmente interessante e que vem para ficar.
Se depender unicamente da indústria, é claro que tal ciclo nunca terá fim.

Quanto ao "free", esse termo faz confusão até mesmo em Inglês e dá idéia de um argumento dúbio e ao mesmo tempo volátil.

Note-se que nem mesmo a cerveja pode ser exatamente grátis, pois seu preço poderá estar embutido, por exemplo, no custo de um ingresso ou qualquer coisa assim.

O Linux é ao mesmo tempo de natureza livre porém compartilhável, e por vezes gratuito apenas por conseqüência ou coincidência, mas nào por filosofia original.
Sendo de natureza conpartilhável, é de se esperar (de uma forma utópica) que todos contribuam para com um projeto comum;
Mas não é exatamente isso o que realmente acontece, pois há um grupo de usuários não-colaboradores imensamente maior que o grupo de colaboradores efetivos.

Ao final, TODOS sabemos o que esse "free" quer dizer, no final das contas.

[7] Comentário enviado por f_Candido em 22/02/2008 - 23:08h

Isso ainda vai gerar muita discursão...

Abraços

[8] Comentário enviado por librarian em 23/02/2008 - 08:45h

Teixeira:

Quando rascunhei esse artigo, iria mesmo falar sobre essa necessidade de hardware moderno para executar o Linux para a época -- mas quando percebi que isso iria criar paralelo com a necessidade de hardware do Vista hoje, preferi deixar quieto. :D


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