A tragédia silenciosa das distribuições baseadas (ou “agregadas”)

Minha sobrinha me pediu para ajudá-la em uma matéria sobre Sistemas Operacionais e ela se interessou muito nesse conteúdo que escrevi para ela e estou postando aqui. Por favor leiam e entendam o objetivo técnico, não estou criticando distribuições ou usuários mas sim argumentos que parecem legitimar alguns vícios que qualquer usuário - acho que até o mais fanático - há de, pelo menos, refletir sobre.

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Por: Sidnei Serra em 21/02/2026 | Blog: https://www.youtube.com/@alquimistaTI


Mais do mesmo, pelo menos a maioria



Sei que esse tipo de assunto pode criar atritos entre os usuários de Linux mas é uma coisa que tem que ser dita: quando a "liberdade" no Linux é argumento para a repetição e isso podemos ver em muitas "distribuições" que vemos por aí, onde 80% delas (cálculo meu, hehehe) baseadas no Debian ou Ubuntu e que não agregam nada ao desenvolvimento do Linux em si.

Distribuições Linux baseadas sempre existiram e nem isso é o problema. O ecossistema Linux nasceu justamente da ideia de reaproveitar um trabalho já desenvolvido: o kernel, o espaço de usuário, ferramentas de sistema, tudo é compartilhado. O problema começa quando "baseada" vira desculpa para ausência total de responsabilidade técnica.

Nos primeiros tempos, criar uma distro baseada em Debian ou Ubuntu (há outras distros principais como Arch e Fedora) significava quase que assumir um compromisso: manter e testar pacotes, tomar decisões próprias, resolver problemas que a base não resolvia. Hoje, na maioria dos casos, significa apenas agregar repositórios alheios (ou seja, chupar a infraestrutura de repositórios da distribuição base), aplicar uma camada estética, encher de aplicativos que o "desenvolvedor" acha que o usuário precisa e chamar isso de "novo sistema" quando, na verdade, é uma remasterização da distribuição original.

Essas distribuições não mantêm infraestrutura crítica: não mantêm pacotes relevantes, não participam de decisões de desenvolvimento e não influenciam em nada na criação de novos recursos; elas existem à margem do esforço real alheio e dependem integralmente dessa "vampiragem". Não tem nem o trabalho de colocar uma linha no sources.list de um repositório próprio...

O pior de tudo é que isso raramente parece errado à primeira vista. A distro instala bem, é "bonita e funcional", vem com codecs, temas, programas, configurações, atalhos e scripts que dão aquela sensação de cuidado. Para o usuário final - especialmente o iniciante, isso soa como valor agregado (do tipo "nossa, que distro incrível!") pois assim o usuário não tem o trabalho - e nem o importante aprendizado - de deixar o sistema pronto para o uso de maneira produtiva. Uma vez fui em um fórum de lançamento de "distros" e visitei um dos links da "distribuição incrível que vai substituir o Windows"; chegando lá era o que se esperava, um Debian totalmente customizado sem uma linha a mais ou a menos na sources.list da distribuição base e um monte de pela-saco elogiando a "distribuição" dizendo que vai substituir o Linux (!!) e quando perguntei se tinha uma ferramenta de instalação de drivers nVidia e AMD falaram para procurar no fórum do Ubuntu. Aí não, né...

E a coisa piora mais ainda quando os argumentos usados para validar esse tipo de coisa são liberdade, open source, GPL/GNU; até aí tudo bem mas liberdade de licença não é mérito técnico. Não é porque é livre que não pode ser criticado e curiosamente, quando há críticas, vem frases como "me mostre o que você já fez", provando indiretamente que um sistema "agregado" pode ser tão frágil tecnicamente na sua concepção a ponto de gerar insegurança frente aos argumentos mostrados. Se não há inovação, se quando algo quebra ou há falha de segurança e não é a distro agregada que resolve isso não é distribuição e sim remasterização e, finalmente, quando o ciclo de vida termina, ela apenas desaparece ou é recriada em cima de outra base e o usuário fica dependente da base que nunca escolheu conscientemente.

A distribuição agregada pode muito bem - frente ao tão badalado GNU/GPL - reempacotar, redistribuir, renomear e personalizar pacotes e versões mas não obriga ninguém a "respeitar" o projeto (no sentido de mostrar que há o que melhorar) e tratá-lo como "distro de verdade" fingindo que há inovação onde não há. Se há a liberdade de criar, também deveriam existir as liberdades de criticar e de dizer "isso não agrega nada" ou "mais do mesmo" mas não é o que ocorre na prática, com pessoas falando que "voxê núm intêndi o çiguinificádu da filôusofía do GNU/GPL". A licença permite a criação e tudo mais e isso eu concordo mas, se a "distro" se vende como inovação, esconde que vive 100% da base, cria uma marca maior que o esforço técnico e se capitaliza em cima de trabalho alheio sem devolver nada proporcional, me desculpem, isso é vampirismo.

E claro que há as exceções, há distribuições baseadas que podem mais pra frente trilhar um caminho próprio, como ocorreu com o Ubuntu que vem do Debian. Linux MintMX Linux e Elementary OS podem estar nesse caminho, o resto é tudo cara de macOS ou de Windows MAS, pelo menos, as "vampirudas" servem para popularizar o Linux mesmo que isso fragmente o ecossistema com "300 mil" distribuições disponíveis, é só dar uma olhada no site da Distro Watch...

E só pra deixar claro, esse fenômeno ocorre com outras distribuições mas o Debian e Ubuntu são as preferidas justamente pela facilidade e ferramentas de criação disponíveis; pena que tais ferramentas de  criatividade não sejam usadas - na maioria das vezes - para evoluir o sistema...

   

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