Entre o minimalismo forçado do GNOME e o poder quase excessivo do KDE Plasma, existe um ambiente gráfico que costuma passar meio despercebido mas que
talvez seja o mais sensato de todos: o
Cinnamon. Criado pelo time do
Linux Mint, o Cinnamon nunca tentou reinventar o desktop e
talvez seja exatamente por isso que ele funciona tão bem.
O Cinnamon não quer te educar - só quer trabalhar
Diferente do GNOME, o Cinnamon não parte da premissa de que o usuário é incapaz de lidar com opções, mesmo que a tendência seja essa, hehehe.
E diferente do KDE, ele também não assume que todo mundo quer passar a tarde inteira configurando cada pixel da interface.
A filosofia é simples: desktop clássico, comportamento previsível e zero frescura, ou seja, chato por não dar trabalho...
- Menu de aplicativos? Lá;
- Área de notificação? Funciona;
- Botão de minimizar? Presente;
- Painel inferior? Como sempre foi;
- Extensões e widgets pra encher de firulas? Claro.
Nada aqui tenta te surpreender. E isso, em 2026, já é quase um ato
revolucionário frente o que vemos estar acontecendo com outras interfaces gráficas.
A "xupada" descarada do GNOME - e ainda bem por isso
Vamos ser honestos, o Cinnamon é uma "xupada" (com todo o respeito, claro) na cara dura do GNOME Shell (mais ou menos como ocorre com as distribuições "baseadas"), só que feita por gente que aparentemente usa computador. Ele usa:
- GTK;
- Mutter (via Muffin);
- boa parte da stack o GNOME.
Mas faz algo que o GNOME se recusa, que é manter o paradigma clássico de desktop. É como se o time do Mint tivesse olhado pro GNOME e dito: "legal, mas não vamos jogar 20 anos de UX no lixo". Resultado:
- base tecnológica moderna;
- interface familiar;
- sem ruptura forçada de workflow.
Nemo: o herói silencioso.
Um dos maiores acertos do Cinnamon é o
Nemo, o gerenciador de arquivos. Enquanto o Nautilus foi sendo simplificado,
capado e infantilizado, o Nemo manteve as opções avançadas, ações personalizadas, scripts e um layout funcional.
Ele faz exatamente o que um file manager deve fazer: gerenciar arquivos, não ensinar filosofia de design. Está longe de dizermos
(como a Chiquinha do Chaves) "nossa, mas que beleza de gerenciador de arquivos" mas é menos retardado que o Nautilus, o qual serviu de base e
depois seguiu um caminho próprio de desenvolvimento pelo pessoal do Mint.
Prós do Cinnamon (onde ele realmente brilha)
- Interface clássica e coerente;
- Nada some do nada, nada muda sem motivo funcional;
- você atualiza o sistema e continua sabendo usar o desktop.
- estabilidade acima da média.
O Cinnamon não vive quebrando extensões a cada update porque não depende de gambiarra, os recursos são nativos e entrega uma boa performance.
Não é o mais leve do mundo, mas consome menos que GNOME, é previsível, roda bem em hardware médio e, com uma configuração suficiente (sem exagero),
você consegue:
- mudar painel;
- ajustar temas;
- configurar atalhos;
- personalizar comportamento.
Tudo isso sem virar administrador de UI, fazendo-o ideal para distros de ciclo fixo - como o Debian - onde previsibilidade importa mais que novidade
semanal.
Contras do Cinnamon (porque nada é perfeito)
- evolução lenta - O Cinnamon é conservador, às vezes até demais;
- novidades chegam devagar;
- raramente há impactos como "nossa mas que maravilha!".
Isso é ótimo pra estabilidade mas pode parecer estagnação. Por exemplo, o Wayland ainda é uma novela por herdar muito do GNOME, então:
- ainda é essencialmente X11;
- Wayland existe mais como promessa do que realidade;
- Não é culpa exclusiva dele, mas pesa.
Mas não chega a ser algo tão desastroso pois há muitos usuários com computadores pererecas - como eu - que dependem de um ambiente gráfico X11 para poder usar suas máquinas, como captura de tela usando ffmpeg.
Menos flexível que o KDE
Se você gosta de:
- personalização extrema;
- layouts malucos;
- comportamentos altamente customizados.
O Cinnamon pode parecer limitado mas essa limitação só é percebida se o usuário já experimentou outras interfaces gráficas por um tempo e tem uma base de comparação para diferenciar funcionalidades.
Vive à sombra do GNOME
Mesmo sendo melhor em vários aspectos práticos, o Cinnamon:
- depende do ecossistema GNOME;
- sofre quando o GNOME muda algo radicalmente;
- é sempre visto como "derivado", nunca protagonista.
Os 3 parâmetros acima se encaixam certinhos também nas distribuições baseadas que não tem desenvolvimento próprio, não?
Cinnamon vs GNOME vs KDE: onde ele se encaixa?
- GNOME: visão única, UX opinativa, poucas opções, configurações escondidas de propósito;
- KDE: liberdade total, poder absurdo, complexidade real;
- Cinnamon: equilíbrio, previsibilidade, sanidade mental, sem muita encheção de saco.
O Cinnamon não tenta ser o futuro do desktop, ele tenta ser um bom desktop hoje.
E para quem o Cinnamon é a escolha certa?
Cinnamon é ideal se você:
- quer trabalhar e diversão, não discutir UX;
- prefere desktop clássico em vez de cheio de firulas;
- odeia extensões quebrando ou recursos que são ocultados de propósito;
- não quer aprender um novo paradigma;
- usa notebook ou desktop "normal";
- valoriza estabilidade acima da papagaiada visual de hoje em dia.
Ou seja: usuários reais.
Conclusão: o Cinnamon é boring e isso é um elogio. Boring não no sentido de ser chato mas no sentido de ser aquele juiz de partida de futebol que apita tão bem que ninguém nota que ele está lá. Por isso o maior mérito do Cinnamon é não tentar provar nada pois ele não quer converter usuários, não quer ser revolucionário e nem aparecer no Fantástico: ele só quer que você ligue o computador, faça o que precisa e desligue. Num cenário onde o GNOME remove, o KDE exagera e todo mundo quer reinventar a roda, o Cinnamon faz algo quase subversivo: funciona. E talvez, no fim das contas, essa seja mesmo a aposta mais acertada.
E é claro que não posso deixar de dar a minha opinião pessoal. O Cinnamon é uma interface gráfica mediana que entrega o que se propõe mas não agrada muito os usuários que tem mais vivência no Linux com uso extenso de outras interfaces gráficas. Para mim - no MEU contexto de uso dos MEUS desktops - é uma interface incompleta mas que não deixa a desejar àqueles que procuram uma interface que lhes proporcionem usar o computador e não "esquentar a cabeça usando o computador".