Como o GNOME conseguiu o feito de ser preterido por outras interfaces gráficas

Nesse artigo tento descrever minha decepção crescente (não que isso importe) com o GNOME após algumas conversas com o ChatGPT de "por que isso ou aquilo", expondo "tecnicidades" do projeto e como isso afeta (ou pode afetar) a preferência dos usuários no uso de outras interfaces mesmo que incompletas em recursos - comparativamente falando.

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Por: Sidnei Serra em 30/01/2026 | Blog: https://www.youtube.com/channel/UCRgokKtNlttdmg2RJEa2VYw


1 - O Gnome está se tornando ex-esposa - não quer que o usuário seja feliz



Durante muito tempo, o GNOME foi sinônimo de modernidade no desktop Linux. Teve papel fundamental na transição para interfaces mais limpas, impulsionou o GTK, influenciou outros ambientes de desktop (DE) e ajudou a popularizar o Linux para além do nicho hardcore, onde só era "linuxeiro de verdade" quando não se usava interface gráfica (grande filosofia essa, hehehe). Mas algo mudou e não foi para melhor.

Hoje, o GNOME parece cada vez mais aquele projeto que não quer apenas propor um caminho, mas impor um. E quando o usuário discorda, a resposta não é "ok, faça diferente", e sim: "então o problema é você". O resultado? Usuários experientes migrando silenciosamente (ou "barulhentamente", como eu) para outras interfaces, enquanto o GNOME segue convencido de que está certo mesmo quando todo o ecossistema aponta o contrário.

2 - Quando "decisão de design" (ou "preguiça de implementação") vira birra

Todo projeto precisa de decisões fortes. O problema começa quando decisão vira dogma e vemos esse tipo de coisa ocorrer também em distribuições menos usadas justamente por não quererem seguir tendências funcionais em prol de manter a filosofia e não evoluí-la. O melhor exemplo atual é o FileChooser do GNOME (Abrir / Salvar / Salvar como):
  • ícones pequenos;
  • sem zoom;
  • sem slider;
  • sem atalho;
  • sem opção avançada;
  • sem configuração escondida;
  • sem extensão possível.

Isso não é limitação técnica pois o Windows, macOS, Android e KDE/QT tem isso e o GNOME responde há anos com "não é necessário", "decisão de design", "won't fix" e outras coisas que tiram o tesão de quem usa. Quando o usuário pede opção (e não mudança de padrão), a resposta continua sendo não. Isso não é minimalismo, é teimosia institucional.

3 - O problema não é simplicidade, é controle

O GNOME (e algumas distribuições de Linux) gosta de se vender como "simples". Mas simplicidade não significa tirar controle básico. A interpretação de "simplicidade" real seria:
  • menos passos;
  • menos ruído;
  • escolhas bem pensadas.

Simplicidade "simulada" ou ("empurrada"):
  • remover funções essenciais;
  • esconder recursos óbvios;
  • tratar usuário como incapaz.

No GNOME atual, a lógica é "se você precisa disso, você não é o usuário alvo"; cadê aquela história universal de "escolha" e "liberdade" que o Linux sempre listou como pilares de usabilidade? O ambiente desktop deveria seguir também os mesmos princípios, ainda mais quando ajudou a alavancar o uso de Linux mundo afora. O problema é que cada vez mais gente precisa disso, ou seja, de recursos que podem ou que deveriam existir, ainda mais se existem em outras interfaces gráficas.

4 - Incompatibilidade forçada com o resto do desktop Linux

O Linux moderno finalmente criou um caminho elegante de integração entre toolkits e ambientes gráficos, que é o xdg-desktop-portal e o KDE, por exemplo, adotou isso de forma exemplar:
  • apps GTK, Qt, Electron;
  • file dialog consistente;
  • preview;
  • zoom;
  • comportamento previsível.

O GNOME, por outro lado:
  • mantém o FileChooser como identidade própria;
  • permite que apps ignorem o portal;
  • dificulta integração fora da "bolha GNOME".

Resultado:
  • usuários de KDE sofrem com apps GTK;
  • apps como Firefox e GIMP ficam inconsistentes;
  • o desktop vira um mosaico de UX quebrada.

Isso não é colaboração. É territorialismo.

5 - Firefox e GIMP: exemplos de aliados involuntários do caos

O Firefox é um caso emblemático:
  • em alguns diálogos usa portal;
  • em outros ignora completamente;
  • "Salvar imagem" continua preso ao GTK FileChooser ruim.
Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" tanto no Gnome (quase) quanto no KDE:

Linux: Como o Gnome conseguiu o feito de ser preterido por outras interfaces gráficas


O GIMP segue o mesmo caminho:
  • GTK3;
  • file chooser legado;
  • resistência a mudanças estruturais.

Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" do Gimp tanto no Gnome quanto no KDE:

Linux: Como o Gnome conseguiu o feito de ser preterido por outras interfaces gráficas


Enquanto isso, browsers baseados em Chromium (Brave, Chrome) respeitam o portal e funcionam melhor no Plasma do que o próprio Firefox. Quando até concorrentes diretos integram melhor, o problema deixa de ser técnico e vira filosófico. Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" no Brave com KDE:

Linux: Como o Gnome conseguiu o feito de ser preterido por outras interfaces gráficas


6 - Flatpak: a solução errada para um problema criado

O Flatpak resolve? Até resolve mas a que custo?
  • runtimes gigantes;
  • atualizações constantes;
  • consumo absurdo de dados;
  • duplicação de bibliotecas;
  • quebra da filosofia de sistemas enxutos (especialmente no Debian).

Por conta dessas características uma distribuição de lançamento fixo acaba virando uma rolling release disfarçada. Chega a ser irônico: instalar meio GNOME extra só para ter um diálogo de arquivos decente. Isso não é solução, é paliativo pesado para um problema que não deveria existir basicamente por preguiça OU teimosia.

7 - Extensões quebrando: a falsa promessa de liberdade

Outro clássico do GNOME: "se não gosta, use extensões". Só que:
  • cada release quebra extensões;
  • APIs instáveis;
  • dependência de mantenedores voluntários;
  • sensação constante de gambiarra.

Todo usuário passa por isso (Blur My Shell, Dash To Panel, Dash To Dock e vários outros) e não queremos viver num desktop onde "talvez funcione na próxima versão" e isso gera cansaço. E cansaço gera abandono. E isso também ocorre com distribuições que são pouco utilizadas em relação ao que se vê entre as mais utilizadas.

8 - KDE não venceu por ser perfeito — venceu por respeitar o usuário

O KDE não é perfeito e nunca foi mas o Plasma entende algo fundamental: o desktop serve ao usuário e não o contrário. No KDE:
  • você pode simplificar (ou complicar, é liberdade do usuário, hehehe);
  • pode customizar;
  • pode ignorar opções;
  • pode usar GTK, Qt, Electron sem punição.

Nada é imposto ou removido "para o seu bem" ou, quando é removido, pode ser reinserido. E isso faz toda a diferença no longo prazo.

Conclusão: o GNOME não está sendo preterido por acaso. Os usuários não estão abandonando o GNOME porque ele é "diferente", estão abandonando porque ele se tornou hostil à escolha. E quando itens como:
  • controle básico é negado;
  • críticas são descartadas;
  • decisões viram dogma;
  • integração é sabotada;
  • UX vira doutrina.

O projeto deixa de ser desktop e vira manifesto e desktop não é lugar para manifesto (ou não deveria ser), é lugar para trabalhar e diversão. Se o GNOME continuar nesse caminho, não será "superado" tecnicamente, será evitado - novamente citando as distribuições que acham que deveriam existir do jeito que foram criadas sem levar em conta a evolução do ecossistema e dos usuários.

Evitado silenciosamente e sem drama pelos usuários, como eu fiz. É o Gnome se tornando aquela ex que ninguém quer mais encontrar por ela querer as coisas do jeito dela e não do jeito certo.
   

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Comentários
[1] Comentário enviado por xerxeslins em 30/01/2026 - 13:22h


Interessante!





[2] Comentário enviado por SamL em 30/01/2026 - 14:07h

Caramba Sidnei, muito do que tu escreveu eu tinha observado também no Android, principalmente esse lance de achar o usuário um incapaz.
No android é ainda mais gritante e no gnome ainda tá muito leve. Parece até que os devs tão combinando isso.

Ótimo artigo!


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