Durante muito tempo, o GNOME foi sinônimo de modernidade no desktop
Linux.
Teve papel fundamental na transição para interfaces mais limpas, impulsionou o GTK, influenciou outros
ambientes de desktop (DE) e ajudou a popularizar o Linux para além do nicho hardcore, onde só era
"linuxeiro de verdade" quando não se usava interface gráfica (grande filosofia essa, hehehe).
Mas algo mudou e não foi para melhor.
Hoje, o GNOME parece cada vez mais aquele projeto que não quer apenas propor um
caminho, mas impor um. E quando o usuário discorda, a resposta não é "ok, faça diferente", e sim:
"então o problema é você". O resultado? Usuários experientes migrando silenciosamente
(ou "barulhentamente", como eu) para outras interfaces, enquanto o GNOME
segue convencido de que está certo mesmo quando todo o ecossistema aponta o contrário.
2 - Quando "decisão de design" (ou "preguiça de implementação") vira birra
Todo projeto precisa de decisões fortes. O problema começa quando decisão vira dogma e vemos esse
tipo de coisa ocorrer também em distribuições menos usadas justamente por não quererem seguir
tendências funcionais em prol de manter a filosofia e não evoluí-la. O melhor exemplo atual é o
FileChooser do GNOME (Abrir / Salvar / Salvar como):
- ícones pequenos;
- sem zoom;
- sem slider;
- sem atalho;
- sem opção avançada;
- sem configuração escondida;
- sem extensão possível.
Isso não é limitação técnica pois o Windows, macOS, Android e KDE/QT tem isso e o
GNOME responde há anos com "não é necessário", "decisão de design",
"won't fix" e outras coisas que tiram o tesão de quem usa. Quando o usuário pede opção
(e não mudança de padrão), a resposta continua sendo não. Isso não é minimalismo,
é teimosia institucional.
3 - O problema não é simplicidade, é controle
O GNOME (e algumas distribuições de Linux) gosta de se vender como
"simples". Mas simplicidade não significa tirar controle básico. A interpretação de "simplicidade"
real seria:
- menos passos;
- menos ruído;
- escolhas bem pensadas.
Simplicidade "simulada" ou ("empurrada"):
- remover funções essenciais;
- esconder recursos óbvios;
- tratar usuário como incapaz.
No GNOME atual, a lógica é "se você precisa disso, você não é o usuário alvo";
cadê aquela história universal de "escolha" e "liberdade" que o Linux sempre listou como pilares de
usabilidade? O ambiente desktop deveria seguir também os mesmos princípios, ainda mais quando ajudou
a alavancar o uso de Linux mundo afora. O problema é que cada vez mais gente precisa disso, ou seja,
de recursos que podem ou que deveriam existir, ainda mais se existem em outras interfaces gráficas.
4 - Incompatibilidade forçada com o resto do desktop Linux
O Linux moderno finalmente criou um caminho elegante de integração entre toolkits e ambientes gráficos,
que é o
xdg-desktop-portal e o KDE, por exemplo,
adotou isso de forma exemplar:
- apps GTK, Qt, Electron;
- file dialog consistente;
- preview;
- zoom;
- comportamento previsível.
O GNOME, por outro lado:
- mantém o
FileChooser como identidade própria;
- permite que apps ignorem o portal;
- dificulta integração fora da "bolha GNOME".
Resultado:
- usuários de KDE sofrem com apps GTK;
- apps como Firefox e GIMP ficam inconsistentes;
- o desktop vira um mosaico de UX quebrada.
Isso não é colaboração. É territorialismo.
5 - Firefox e GIMP: exemplos de aliados involuntários do caos
O Firefox é um caso emblemático:
- em alguns diálogos usa portal;
- em outros ignora completamente;
- "Salvar imagem" continua preso ao GTK
FileChooser ruim.
Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" tanto no Gnome (quase) quanto no KDE:
O GIMP segue o mesmo caminho:
- GTK3;
- file chooser legado;
- resistência a mudanças estruturais.
Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" do Gimp tanto no Gnome quanto no KDE:
Enquanto isso, browsers baseados em Chromium (Brave, Chrome)
respeitam o portal e funcionam melhor no Plasma do que o próprio Firefox.
Quando até concorrentes diretos integram melhor, o problema deixa de ser técnico e vira filosófico.
Abaixo uma imagem de uma janela de "abrir" no Brave com KDE:
6 - Flatpak: a solução errada para um problema criado
O Flatpak resolve? Até resolve mas a que custo?
- runtimes gigantes;
- atualizações constantes;
- consumo absurdo de dados;
- duplicação de bibliotecas;
- quebra da filosofia de sistemas enxutos (especialmente no Debian).
Por conta dessas características uma distribuição de lançamento fixo acaba virando uma
rolling release
disfarçada. Chega a ser irônico: instalar meio GNOME extra só para ter um diálogo
de arquivos decente. Isso não é solução, é paliativo pesado para um problema que não deveria existir
basicamente por preguiça OU teimosia.
7 - Extensões quebrando: a falsa promessa de liberdade
Outro clássico do GNOME: "se não gosta, use extensões". Só que:
- cada release quebra extensões;
- APIs instáveis;
- dependência de mantenedores voluntários;
- sensação constante de gambiarra.
Todo usuário passa por isso (Blur My Shell, Dash To Panel, Dash To Dock e vários outros) e não queremos
viver num desktop onde "talvez funcione na próxima versão" e isso gera cansaço. E cansaço gera abandono.
E isso também ocorre com distribuições que são pouco utilizadas em relação ao que se vê entre as mais
utilizadas.
8 - KDE não venceu por ser perfeito — venceu por respeitar o usuário
O KDE não é perfeito e nunca foi mas o Plasma entende algo
fundamental: o desktop serve ao usuário e não o contrário. No KDE:
- você pode simplificar (ou complicar, é liberdade do usuário, hehehe);
- pode customizar;
- pode ignorar opções;
- pode usar GTK, Qt, Electron sem punição.
Nada é imposto ou removido "para o seu bem" ou, quando é removido, pode ser reinserido. E isso faz toda
a diferença no longo prazo.
Conclusão: o GNOME não está sendo preterido por acaso. Os usuários não estão
abandonando o GNOME porque ele é "diferente", estão abandonando porque ele se
tornou hostil à escolha. E quando itens como:
- controle básico é negado;
- críticas são descartadas;
- decisões viram dogma;
- integração é sabotada;
- UX vira doutrina.
O projeto deixa de ser desktop e vira manifesto e desktop não é lugar para manifesto
(ou não deveria ser), é lugar para trabalhar e diversão. Se o GNOME continuar
nesse caminho, não será "superado" tecnicamente, será evitado - novamente citando as distribuições que
acham que deveriam existir do jeito que foram criadas sem levar em conta a evolução do ecossistema e
dos usuários.
Evitado silenciosamente e sem drama pelos usuários, como eu fiz. É o Gnome se tornando aquela ex que ninguém quer mais encontrar por ela querer as coisas do jeito dela e não do jeito certo.