Filosofia do Open Source, um novo jogo?

Muitos crêem que o Linux é uma mudança de mentalidade ou algo semelhante que implique numa "mudança de postura", como se costuma definir as novas eras. Esse artigo mostra uma outra face menos romântica, ou menos psicológica das alterações causadas pelo Linux: a regra do jogo.

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Por: Edwal F. Paiva Filho em 28/04/2010


Conclusão



Todos os principais projetos open source seguem, em linhas gerais, o conceito de "close to optimum", ou aproximação aceitável do jogo ideal com participantes ideais.

Há nuances e sutilezas que diferenciam os projetos tipo BSD (núcleo estabelecido em uma universidade vinculada ao estado); ou tipo Linux vinculado a empresa e tipo fundação Debian e Free Software Foundation.

A diferença básica está no conceito de qual seria a aproximação aceitável para o jogo ideal, e esse aceitável é, em grande parte, subjetivo. Note que a viabilidade de espaço pode ser mais (ou menos) limitada para uma modalidade ou outra. Quer dizer que se todos utilizassem a mesma estratégia haveria uma saturação mais rápida de espaço para um mesmo assunto.

Alguns projetos tem características gerais não tão precisas como, por exemplo o Ubuntu, cujo núcleo é uma empresa, mas tem aberturas de contribuições de código alargadas.

O jogo de participação é mundialmente utilizado na forma de JIP (joint industry project), uma modalidade de projeto, em geral de desenvolvimento, onde os participantes contribuem com dinheiro ou pesquisa para obtenção de um resultado. Nisso o Software livre não é diferente, mas é bem menos formal, e infinitamente mais aberto.

Há jogos que ficam dentro do laboratório; esses são, em geral, desenvolvimentos de alta tecnologia onde apenas especialistas altamente qualificados são selecionados como participantes. Isto é normal para produtos que não são ofertados diretamente ao grande público. Distros de Linux especialistas que exploram novos conceitos são um exemplo. Uma vez expandido o jogo, suas características passam por adaptação, pois o nível de especialização é inversamente proporcional à quantidade de participantes.

No open-source existe uma realimentação dos jogos, por exemplo: projetos que não tem objetivos de massa alimentam projetos que são elaborados com objetivo de massa. Isso é visível em algumas distros derivativas.

Hoje, praticamente todas as grandes distros tem objetivos de massa. Empresas que possuem versões fechadas e abertas do Linux jogam dois jogos, um para ganhar a massa e outro para obter clientes diretos.

O software livre contém um pouco de filosofia utilitarista (ética de maximizar o bem) e um pouco de teoria dos jogos. Nesse sentido há uma inversão de causa e efeito em relação ao dinheiro em si. Num empreendimento normal são calculados o indicadores de ganhos.

No projeto open source é criado um grande jogo como causa direta e o ganho como consequência. Não sei se isso é fundamental do ponto de vista ético ou se é apenas uma questão de boas maneiras. Os projetos que visam maximização global dos resultados, em geral, não colocam seus objetivos principais no curto prazo, embora isso soe como heresia ao capitalismo micro.

O open source não parece ter objetivos imediatos, mas de longo prazo, num jogo onde alguns saem e outros entram para dar continuidade e manter o desenvolvimento.Enquanto houver mercado para vender o produto todos os participantes terão a ganhar com o jogo, garantindo às empresas (mesmo que essa empresa seja de um homem só) manterem-se atualizadas na tecnologia.

Vamos raciocinar ao contrário: seria mais vantagem manter uma tecnologia fechada como o Db2. Isso incorre no risco do concorrente surgir com uma nova tecnologia que se torne o padrão (ainda que temporariamente) e causar a derrocada do negócio. Muitos gigantes do software comercial já experimentaram o gosto amargo da obsolescência dos seus caríssimos produtos e bandearam para o open source, onde tem a garantia de que estão em sincronia com o mundo. Em outras palavras, é melhor dividir o filet mignon com a concorrência que roer o osso sozinho, ainda que isso ofenda aos cânones do capitalismo purista.

Muito se pode desenvolver sobre o assunto, especialmente pelos fãs da teoria dos jogos, ou pelos adeptos da ética utilitarista, mas isso não caberia em um artigo de leitura geral.

Sobre as referências:
  • Quanto a teoria dos jogos você vai encontrar toneladas de informações na internet.
  • Quanto ao utilitarismo você vai encontrar toneladas de DESINFORMAÇÕES na internet. A única fonte confiável é o livro sobre utilitarismo de John Stuart Mill (http://www.gutenberg.org/etext/11224)

Obrigado.

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Páginas do artigo
   1. Considerações conceituais
   2. A teoria dos jogos
   3. Conclusão
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Comentários
[1] Comentário enviado por valterrezendeeng em 28/04/2010 - 09:13h

Gostei do Artigo, Principalmente da Conclusão

Lembro do Novell Netware, Excelente Servidor de Rede, mais entrou para história e foi descontinuado. Hoje a Novell está com o SUSE.

Temos tabem a SUN que abriu o JAVA e a Oracle que até tem uma distribuição Linux entre outros

Abraço

[2] Comentário enviado por Teixeira em 28/04/2010 - 10:11h

Gostei muito do artigo, de suas ponderações e também de sua conclusão.

- Já existe há muito tempo o desejo mundial de "reciclar" linhas de código, e acho que isso veio de alguma forma coincidir com as idéias do open source.
Inclusive já teve aqui no Brasil um simpático "maluco-beleza" que desejou fazer um movimento asim, e que não se enquadrando como associação ou colegiado, passou a ter o nome de "Igreja Tringular do Resíduo Digital" (quem se lembra?).
A idéia original era boa e séria, mas andaram aparecendo alguns fanáticos com outras idéias bem mais malucas, incusive pregando o suicídio em massa.
Para evitar problemas, o idealizador da "igreja" reolveu dar um fim à história, antes que acontecesse alguma fatalidade...

- Muitas coisas que legalmente já deveriam estar sob domínio público por decurso de prazo e caducidade de patentes (segundo o direito internacional) na verdade não estão, por motivos muitas vezes inexplicáveis. Dentre os tais se destacam a fórmula da Coca-Cola, o MS-DOS, e o Windows 3.x. da Microsoft.
Mas também há um gancho legal onde aquelas empresas se apegam: è que para ser considerado "de domínio público" o bem deveria ser assim disponibilizado pelos donos de tais patentes drurante o prazo de vigência de tais patentes. (Hmm, que furo, não?...)

- A teoria dos jogos, embora não seja perversa, é um tanto cruel. No entanto, as regras são aquelas mesmo, doa a quem doer.

- Quanto ao tributarismo, acho que toda a população (municipal, estadual, federal, mundial) deveria pagar um imposto único, algo "como se fosse um dízimo" mas cujo percentual fosse cuidadosamente estudado de forma a que todos pudessem efetivamene contribuir e que em contraparte tivessem COM QUE contribur. Partes de Tal imposto seriam repassadas proporcionalmente do municípo gerador para o stado e para a Federação.
Evidentemente os governos deveriam investir (de verdade) em esruturas que permitissem uma melhor distribuição de renda, alimentando assim a galinha dos ovos de ouro.
Atualmente os políticos se preocupam em aumentar infinita e indevidamente o número de "repesentantes do povo" e que na verdade em nada os representam, antes locupletam-se com verbas as mais diveras e sobretudo LEGISLAM EM CAUSA PRÓPRIA.

Para que ninguém diga que sso seria uma utopia, vamos citar apenas um país entre os muitos que têm um único imposto principal e que é a espinha dorsal da arrecadação: A Austrália.
(Uma outra parte da arrecadação é feita através de multas sobre infrações. Mas imposto é imposto, e multa é multa).
Aqui se paga imposto sobre o que não se tem efetivamente e que não se sabe se um dia chegaremos a ter. Outros países adotam a tributação sobre "lucro futuro presumido" , que também a meu ver é uma arrecadação bastante distanciada de conceitos justos. E entre esses tais paísees se encontram os Estados Unidos e a Inglaterra.

- A filosofia do open source é uma modalidade de jogo que busca um eterno desequilíbrio, uma espécie de "moto contínuo".
No dia em que tal equilíbrio for hipoteticamente conseguido, o jogo estará acabado, restando saber QUEM será a parte vencedora.
Por enquanto, o open source joga com poucas fichas contra um jogador cujo cacife é extremamente alto, mas que em compensação nao tem TODAS as cartas.
Simplifiando (ou complicando mais ainda), é como se o "open source" jogasse com três ases e o "software proprietário" com a maioria das cartas.

[3] Comentário enviado por Teixeira em 28/04/2010 - 10:41h

Esqueci de falar sobre a Novell.
Há muitos anos atrás havia uma importante fábrica brasileira de modems - a Cetus.
Seus modems em nada ficavam a dever aos mais famosos modelos importados.
Foi intentada uma parceria com a Novell, e parece que as coisas estavam indo bem, mas naquela época existia uma tal de "Reserva de Informática" que nunca beneficiou o Brasil, exceto a uma única empresa (estatal), a qual vendia montes e mais montes de computadores (literalmente falando) sempre para empresas igualmente estatais, que faziam pilhas intermináveis com os computadores ainda encaixotados e que jamais foram abertos para uso.
Essas pilhas de computadores eram encontradas na Petrobrás, no Banco do Brasil, etc., etc. por vezes até mesmo nos corredores, dada a quantidade que era realmennte enorme.
(Se 2% de todos aqueles computadores foi realmente instalado, quero ser mico de circo).
O resultado já era esperado. Não dá para fabricar apenas o modem sem o suporte de uma tecnologia adequada. Os demais modems tinham a "espantosa" velocidade conhecida como 1200/75 (transmitia a 1200 bauds e recebia a 75 bauds; é claro que isso gerava uma quantidade enorme de pulsos telefônicos - e hoje a gente ainda reclama das conexões dial-up de 56 quilobauds!). Mas reclamar seria totalmente "debaud".
A Cetus dentro de pouco tempo entrou em concordata e fechou as portas. A Novell ficou por um longo tempo impedida de ser comercializada LEGALMENTE em nosso país.
Como era de se esperar, o que havia de pirataria de hardware naquela época era coisa inimaginável.
Vinham containers e mais containers fechados (que "por ordem superior" sequer passavem pela alfândega) carregados de produtos de informáica disfarçados sob as mais variadas desculpas (*).
Ah, o texto integral do "carimbo mágico" era um lacônico "Por ordem superior deve ser atendido sem embargos" . Com a data, e a assinatura do Gandola.
E por outro lado, o vai-e-vem na Ponte da Amizade começou a aumentar exatamente na mesma época...

---

(*) Entre os muitos e muitos trambiques de natureza alfandegária, acho que o mais famoso é o da importação lá pela década de 50, de um bem descrito como sendo um "motor a gás pobre, sobre rodas": Era um Cadillac "rabo-de-peixe", um automóvel caríssimo e que fazia cerca de 3km com um litro de gasolina.

[4] Comentário enviado por ribafs em 28/04/2010 - 11:01h

Uma beleza de artigo.
Afinal de contas nem só de bits pode viver o homem.
Acredito que este tipo de reflexão amplia nossos horizontes.

Meus sinceros parabéns e ficarei feliz em ler novos textos seus, Edwal.

Gostaria fraternalmente de discordar do colega que comentou:

- A teoria dos jogos, embora não seja perversa, é um tanto cruel. No entanto, as regras são aquelas mesmo, doa a quem doer.

A questão, a meu ver, é que a filosofia embutida ou pelo menos subentendida no open source é de colaboração, fraternidade.
Acho que disso nosso mundo parece que sempre teve carente e ao meu ver o softeare livre vem trazendo isso como proposta e bem pelo menos pingando isso aqui e ali.
Eu fico impressionando como alguém gasta boa parte do seu tempo, produzindo algo de grande valor e de grande qualidade e ainda por cima compartilha da forma mais generosa. Essas pessoas que agem assim são meus amigos, meus familiares, mesmo que eu nunca os tenha visto nem venha a ver. Sou grato a todos e procuro retribuir de forma semelhante.
Felicidades a todos!

[5] Comentário enviado por vinipsmaker em 29/04/2010 - 07:37h

Parabéns pelo artigo, vai pros favoritos.

[6] Comentário enviado por nicolo em 31/05/2010 - 12:38h

Estava consersando outro dia sobre isso. A força motriz do open source foi um equívoco daqueles do zeitgeist (o espírito do tempo).
Quem estudou algo de marketing já entendeu que a força revolucionária da ambição privada está contida e cerceada dentro das leis maquiavélicas..... começam como raposas e terminam como leões. Isso ocorre porque venceram e cresceram. Olhem a IBM, a Novel a Sun system, das que sobraram para contar a estória, outras nem existem mais. Nasceram como raposas espertas, cresceram e ficaram fortes e viraram leões. O interesse pela esperteza ficou no passado.
A transposição do velho Unix para o desktop não foi a idéia original... quer dizer não teria sido se não fosse o tal do downsizing. O downsizing caiu no colo da Microsoft, empurrando o windows NT para os servidores. A concorrência sentiu o tranco e buscou uma saída.
Após gastarem bilhões em desenvolvimentos de sistemas operacionais proprietários, a concorrência achou a saída no open source.

As IBM, NOVEL, Sun etc preferiram repartir o filet mingnon a roer ossos solitariamente.
O Slackware foi o primeiro a ganhar fama nos servidores, depois vieram outras distros.

Em paralelo veio a idéia de ampliar o uso do GNU-Linux com o tal pacote que atendesse 90% das necessidades do importantíssimo usuário.
comum.
A briga saiu do servidor e ganhou as ruas, digo os desktops. É um jogo onde a cada rodada, não apenas as cartas são distribuídas, o baralho muda também e é diferente do anterior. Coisa de maluco mesmo.


[7] Comentário enviado por xerxeslins em 13/06/2011 - 15:10h

Para mim uma aula. Nota 10.


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