Pensei em escrever o artigo, depois achei que era fora do contexto, acabei escrevendo motivado por discussões e colocações dos participantes.
Há algumas considerações românticas e outras preocupações legítimas sobre o open source quanto ao seu futuro. Esse artigo é apenas uma cogitação sobre um assunto deveras vasto e complexo e não tem nenhuma ilusão quanto a ser profundo, preciso e muito menos completo. Trata-se apenas de levantar uma hipótese, não tão popular, quanto ao que venha a ser o conceito de open source.
Vou resumir alguns conceitos que podem ser verificados na literatura pertinente e talvez soem como heresia às crenças oficiais vigentes, mas a veracidade (ou não) é verificável nos livros de história e outros bons livros.
Há um razoável consenso que o open source é a antítese do software proprietário no sentido de liberdade e vínculo de dependência. Esse aspecto, embora importante, não é a única motivação, talvez não seja a mais forte. A liberdade ou restrição no jargão desses conceitos seria a tragédia do jogo, onde o lado mais forte, ou o estamento (status-quo) impõe barreiras de entrada e restrições quanto às estratégia possíveis.
Substancialmente o open source libera a propriedade intelectual sobre o código, ou no jargão legal não há o privilégio da exclusividade. A estratégia do jogo do software comercial é o privilégio sobre o código fechado, suportado por um arcabouço legal que impede a cópia sem a devida compensação financeira, leia-se licença de uso.
A ideia da propriedade intelectual não é universal; nem mesmo foi consenso no passado nos países que hoje a defendem. Santos Dumont era contra patentes por achar que elas atrasam o progresso da humanidade. Os conceitos de justo e injusto são relativos e variam no tempo e em cada lugar. No momento passado a fascinação pela tecnologia superava a visão do lucro. A maioria das invenções nasceu elitista, e no momento seguinte a expansão industrial era tão grande que a ideia de patente parecia algo sem importância, todos copiavam e vendiam a produção completa. Com o passar do tempo a força da inovação passou a fazer grande diferença e a ideia de patente ganhou força.
Durante a guerra fria o lado comunista não reconhecia patentes do ocidente e vice versa. Algumas invenções russas como o navio utilizado para levantar outras embarcações flutuando são hoje de domínio público, o ocidente copiou sem dar satisfações e vice versa. Toda tecnologia disponibilizada (de domínio púbico) é tecnologia velha e pouco representa em competitividade.
No mundo inteiro o direito de uso exclusivo da propriedade intelectual é limitado por tempo, depois cai em domínio público, embora isso varie de um país para outro e há certos exageros. Se considerarmos as nuances e sutilezas sobre o que é novidade e o que não é novidade na tecnologia, de uma maneira geral, entraremos num pântano escuro e nebuloso. Note que a novidade é patenteada para evitar que a imitem de graça.
Na informática a paranoia de patentes ganhou dimensões exageradas, em parte e digo em parte mesmo, porque é uma tecnologia que muda rapidamente e com grande impacto.
Em algumas áreas da indústria, e na grande maioria dos produtos, a novidade não faz tanta falta, em especial porque as patentes tem tempo de validade limitado. Veja a indústria automobilística: quem inventou o freio ABS? E a injeção eletrônica. Todas as marcas têm isso e ninguém resmunga por patente.
Nesse caso o concorrente inventou um dispositivo que faz a mesma coisa, sem precisar olhar o do outro.
O jargão de um concorrente que não quer pagar os direitos de privilégio (royalties) diria o seguinte: "Não preciso de você, e não vou lhe pagar um tostão". Em alguns casos os concorrentes partem para o confronto como foi o caso da Sony Betamax, e o VHS das fitas de vídeo, hoje os dois são História para gente velha. O DVD enterrou os ambos.
Na informática a oportunidade de fazer algo equivalente por outros caminhos é total. Escrever software, como mostra o software livre, não tem barreiras significativas, além do próprio cérebro.
[1] Comentário enviado por
valterrezendeeng em 28/04/2010 - 09:13h:
Gostei do Artigo, Principalmente da Conclusão
Lembro do Novell Netware, Excelente Servidor de Rede, mais entrou para história e foi descontinuado. Hoje a Novell está com o SUSE.
Temos tabem a SUN que abriu o JAVA e a Oracle que até tem uma distribuição Linux entre outros
Abraço
[2] Comentário enviado por
Teixeira em 28/04/2010 - 10:11h:
Gostei muito do artigo, de suas ponderações e também de sua conclusão.
- Já existe há muito tempo o desejo mundial de "reciclar" linhas de código, e acho que isso veio de alguma forma coincidir com as idéias do open source.
Inclusive já teve aqui no Brasil um simpático "maluco-beleza" que desejou fazer um movimento asim, e que não se enquadrando como associação ou colegiado, passou a ter o nome de "Igreja Tringular do Resíduo Digital" (quem se lembra?).
A idéia original era boa e séria, mas andaram aparecendo alguns fanáticos com outras idéias bem mais malucas, incusive pregando o suicídio em massa.
Para evitar problemas, o idealizador da "igreja" reolveu dar um fim à história, antes que acontecesse alguma fatalidade...
- Muitas coisas que legalmente já deveriam estar sob domínio público por decurso de prazo e caducidade de patentes (segundo o direito internacional) na verdade não estão, por motivos muitas vezes inexplicáveis. Dentre os tais se destacam a fórmula da Coca-Cola, o MS-DOS, e o Windows 3.x. da Microsoft.
Mas também há um gancho legal onde aquelas empresas se apegam: è que para ser considerado "de domínio público" o bem deveria ser assim disponibilizado pelos donos de tais patentes drurante o prazo de vigência de tais patentes. (Hmm, que furo, não?...)
- A teoria dos jogos, embora não seja perversa, é um tanto cruel. No entanto, as regras são aquelas mesmo, doa a quem doer.
- Quanto ao tributarismo, acho que toda a população (municipal, estadual, federal, mundial) deveria pagar um imposto único, algo "como se fosse um dízimo" mas cujo percentual fosse cuidadosamente estudado de forma a que todos pudessem efetivamene contribuir e que em contraparte tivessem COM QUE contribur. Partes de Tal imposto seriam repassadas proporcionalmente do municípo gerador para o stado e para a Federação.
Evidentemente os governos deveriam investir (de verdade) em esruturas que permitissem uma melhor distribuição de renda, alimentando assim a galinha dos ovos de ouro.
Atualmente os políticos se preocupam em aumentar infinita e indevidamente o número de "repesentantes do povo" e que na verdade em nada os representam, antes locupletam-se com verbas as mais diveras e sobretudo LEGISLAM EM CAUSA PRÓPRIA.
Para que ninguém diga que sso seria uma utopia, vamos citar apenas um país entre os muitos que têm um único imposto principal e que é a espinha dorsal da arrecadação: A Austrália.
(Uma outra parte da arrecadação é feita através de multas sobre infrações. Mas imposto é imposto, e multa é multa).
Aqui se paga imposto sobre o que não se tem efetivamente e que não se sabe se um dia chegaremos a ter. Outros países adotam a tributação sobre "lucro futuro presumido" , que também a meu ver é uma arrecadação bastante distanciada de conceitos justos. E entre esses tais paísees se encontram os Estados Unidos e a Inglaterra.
- A filosofia do open source é uma modalidade de jogo que busca um eterno desequilíbrio, uma espécie de "moto contínuo".
No dia em que tal equilíbrio for hipoteticamente conseguido, o jogo estará acabado, restando saber QUEM será a parte vencedora.
Por enquanto, o open source joga com poucas fichas contra um jogador cujo cacife é extremamente alto, mas que em compensação nao tem TODAS as cartas.
Simplifiando (ou complicando mais ainda), é como se o "open source" jogasse com três ases e o "software proprietário" com a maioria das cartas.
[3] Comentário enviado por
Teixeira em 28/04/2010 - 10:41h:
Esqueci de falar sobre a Novell.
Há muitos anos atrás havia uma importante fábrica brasileira de modems - a Cetus.
Seus modems em nada ficavam a dever aos mais famosos modelos importados.
Foi intentada uma parceria com a Novell, e parece que as coisas estavam indo bem, mas naquela época existia uma tal de "Reserva de Informática" que nunca beneficiou o Brasil, exceto a uma única empresa (estatal), a qual vendia montes e mais montes de computadores (literalmente falando) sempre para empresas igualmente estatais, que faziam pilhas intermináveis com os computadores ainda encaixotados e que jamais foram abertos para uso.
Essas pilhas de computadores eram encontradas na Petrobrás, no Banco do Brasil, etc., etc. por vezes até mesmo nos corredores, dada a quantidade que era realmennte enorme.
(Se 2% de todos aqueles computadores foi realmente instalado, quero ser mico de circo).
O resultado já era esperado. Não dá para fabricar apenas o modem sem o suporte de uma tecnologia adequada. Os demais modems tinham a "espantosa" velocidade conhecida como 1200/75 (transmitia a 1200 bauds e recebia a 75 bauds; é claro que isso gerava uma quantidade enorme de pulsos telefônicos - e hoje a gente ainda reclama das conexões dial-up de 56 quilobauds!). Mas reclamar seria totalmente "debaud".
A Cetus dentro de pouco tempo entrou em concordata e fechou as portas. A Novell ficou por um longo tempo impedida de ser comercializada LEGALMENTE em nosso país.
Como era de se esperar, o que havia de pirataria de hardware naquela época era coisa inimaginável.
Vinham containers e mais containers fechados (que "por ordem superior" sequer passavem pela alfândega) carregados de produtos de informáica disfarçados sob as mais variadas desculpas (*).
Ah, o texto integral do "carimbo mágico" era um lacônico "Por ordem superior deve ser atendido sem embargos" . Com a data, e a assinatura do Gandola.
E por outro lado, o vai-e-vem na Ponte da Amizade começou a aumentar exatamente na mesma época...
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(*) Entre os muitos e muitos trambiques de natureza alfandegária, acho que o mais famoso é o da importação lá pela década de 50, de um bem descrito como sendo um "motor a gás pobre, sobre rodas": Era um Cadillac "rabo-de-peixe", um automóvel caríssimo e que fazia cerca de 3km com um litro de gasolina.
[4] Comentário enviado por
ribafs em 28/04/2010 - 11:01h:
Uma beleza de artigo.
Afinal de contas nem só de bits pode viver o homem.
Acredito que este tipo de reflexão amplia nossos horizontes.
Meus sinceros parabéns e ficarei feliz em ler novos textos seus, Edwal.
Gostaria fraternalmente de discordar do colega que comentou:
- A teoria dos jogos, embora não seja perversa, é um tanto cruel. No entanto, as regras são aquelas mesmo, doa a quem doer.
A questão, a meu ver, é que a filosofia embutida ou pelo menos subentendida no open source é de colaboração, fraternidade.
Acho que disso nosso mundo parece que sempre teve carente e ao meu ver o softeare livre vem trazendo isso como proposta e bem pelo menos pingando isso aqui e ali.
Eu fico impressionando como alguém gasta boa parte do seu tempo, produzindo algo de grande valor e de grande qualidade e ainda por cima compartilha da forma mais generosa. Essas pessoas que agem assim são meus amigos, meus familiares, mesmo que eu nunca os tenha visto nem venha a ver. Sou grato a todos e procuro retribuir de forma semelhante.
Felicidades a todos!
[5] Comentário enviado por
vinipsmaker em 29/04/2010 - 07:37h:
Parabéns pelo artigo, vai pros favoritos.
[6] Comentário enviado por
bakunin em 31/05/2010 - 12:38h:
Estava consersando outro dia sobre isso. A força motriz do open source foi um equívoco daqueles do zeitgeist (o espírito do tempo).
Quem estudou algo de marketing já entendeu que a força revolucionária da ambição privada está contida e cerceada dentro das leis maquiavélicas..... começam como raposas e terminam como leões. Isso ocorre porque venceram e cresceram. Olhem a IBM, a Novel a Sun system, das que sobraram para contar a estória, outras nem existem mais. Nasceram como raposas espertas, cresceram e ficaram fortes e viraram leões. O interesse pela esperteza ficou no passado.
A transposição do velho Unix para o desktop não foi a idéia original... quer dizer não teria sido se não fosse o tal do downsizing. O downsizing caiu no colo da Microsoft, empurrando o windows NT para os servidores. A concorrência sentiu o tranco e buscou uma saída.
Após gastarem bilhões em desenvolvimentos de sistemas operacionais proprietários, a concorrência achou a saída no open source.
As IBM, NOVEL, Sun etc preferiram repartir o filet mingnon a roer ossos solitariamente.
O Slackware foi o primeiro a ganhar fama nos servidores, depois vieram outras distros.
Em paralelo veio a idéia de ampliar o uso do GNU-Linux com o tal pacote que atendesse 90% das necessidades do importantíssimo usuário.
comum.
A briga saiu do servidor e ganhou as ruas, digo os desktops. É um jogo onde a cada rodada, não apenas as cartas são distribuídas, o baralho muda também e é diferente do anterior. Coisa de maluco mesmo.
[7] Comentário enviado por
xerxeslins em 13/06/2011 - 15:10h:
Para mim uma aula. Nota 10.