paulo1205 escreveu:
Houve épocas em que “computador” significava a pessoa que realizava cálculos.
As primeiras máquinas chamadas computadores eram tão somente máquinas de calcular, e os programas que elas admitiam permitiam que elas fizessem cálculos mais avançados ou mais refinados.
O aumento na capacidade de memória e na velocidade de realização de cálculos, bem como a possibilidade de usar computadores eletrônicos para controlar ou ser controlados por outras dispositivos elétricas, eletrônicas e eletromecânicas, foram ao longo do tempo permitindo que os novos computadores, que construídos com as novas capacidades, fossem usados para ver coisas que as gerações anteriores não podiam fazer diretamente.
Assim é ainda hoje. Enquanto não der defeito, seu computador antigo será capaz de fazer as mesmas coisas que fazia quando era novo, e tudo aquilo que for desenvolvido por terceiros e que tenham como alvo computadores com configuração semelhante à que você usa.
O problema com o desenvolvimento feito por terceiros é que a tendência a se produzir coisa nova para sistemas antigos vai diminuindo com o tempo, tanto porque a quantidade de máquinas antigas que sirva como público alvo vai diminuindo quanto pelo simples fato de que os próprios desenvolvedores muitas vezes nem ao menos possuem máquinas antigas para que eles próprios possam desenvolver material novo para elas.
Existe ainda a questão de que, em muitos nichos, é muito tentadora a ideia de explorar ao máximo os recursos novos para dar uma sensação de experiência mais agradável ou mais interessante. Exemplos evidentes são as indústrias de jogos eletrônicos, que demandam muito em capacidade gráfica, memória e processamento, ou steams de áudio e vídeo, que demandam muito em termos de conectividade e alto desempenho de rede.
Ano passado, eu tentei colocar um velho netbook de 32 bits em condições de uso, tanto com Linux (acho que com Kubuntu) quanto com Windows (não lembro de Windows 7 ou se cheguei a tentar Windows 10). Funcionava? Sim. Mas tinha muitas limitações. Como 2020 foi o ano do “fique em casa”, uma coisa importante eram ferramentas de videoconferência, mas não havia muitas opções de 32 bits para Windows, e menos ainda para Linux. Chrome de 32 bits para Linux não existe mais há alguns anos, e mesmo o Firefox, por ter de suportar um monte de tecnologias modernas usadas na web atualmente, ficava pesado numa máquina com processador Atom e com “apenas” 2GiB de RAM.
Possivelmente a experiência de uso ficaria um pouco menos sofrível, por um lado, se eu usasse um Ubuntu 10.04 (ou mesmo 12.04) e Windows XP, bem como navegadores web e outros programas escritos há dez ou quinze anos. Por outro lado, no momento em que eu entrasse na web, muita coisa não iria funcionar (vários protocolos evoluíram e não suportam mais recursos usados em versões antigas, incluindo o HTTPS), um tanto de outras coisas que pressupõem muita memória e muito poder de processamento rapidamente sufocaria o bichinho, e outras tantas coisas possivelmente tentariam explorar vulnerabilidades de segurança que apareceram nos últimos anos para infectar a máquina, roubar ou sequestrar meus dados, ou transformá-la num nó de uma botnet maligna qualquer.
Segurança é um ponto importante neste mundo altamente conectado. Os riscos são reais. Talvez sejam maiores para quem usa Windows do que para em usa Linux, até porque, do mesmo modo como o mercado de software legítimo se volta para o que tem maior público alvo em potencial, o de malware também se volta mais para aquele em que tem mais oportunidade de se propagar, mas há muito tempo o sistema operacional deixou de ser o único meio de infecção. Todo navegador web, hoje em dia (e já há muito tempo) executa código (Javascript, WebAssembly, Java, Flash etc.), e vulnerabilidades em navegadores têm potencial de dano comparável às de outras formas de infecção mais próximas do nível de sistema operacional em décadas anteriores. Sem falar de outros mecanismos de infecção, tais como por meio de PDF (ainda mais com visualizadores antigos), macros em documentos de aplicativos de escritório, e outros.
Existe mercado para o que se chama de retrocomputing. Há quem ainda produza, por exemplo, em pleno 2021, jogos novos para Apple II, Commodore 64, VIC-20 ou PET, e mesmo para o bom e velho Atari 2600. Mas esse é um mundo pequeno, de uns poucos entusiastas que conseguem ter suas máquinas de quase quatro décadas de idade ainda funcionando, de alguns saudosistas que usam emuladores de máquinas antigas em PCs modernos, e de muito poucos produtores de software para máquinas tão antigas. Há também quem prefira as máquinas um pouco menos antigas, como os que colecionam XTs, 386s ou 486s rodando MS-DOS (e talvez versões de 16 bits do Windows). Mas note: o que eles fazem com essas máquinas hoje é rodar os mesmos programas que rodavam nessas máquinas originalmente, ou programas escritos recentemente mas que respeitam os limites tecnológicos das máquinas de décadas passadas. E um desses limites era a de pouca conectividade por redes de dados com o mundo exterior. Não conheço quem espere rodar, de modo decente — se é que de modo algum —, o Microsoft 365 ou o YouTube num TRS-80, MSX ou mesmo num 486.
... Então Jesus afirmou de novo: “(...) eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (João 10:7-10)
Obrigado pela resposta e participação no tópico, Paulo! Ótimo texto. Quando você falou sobre o seu netbook, lembrei de vários deles que tive. Todos da Acer, todos não duravam mais do que 2 anos nas minhas mãos; os pequenos eram sofríveis de serem utilizados, e tirando os emuladores de consoles mais antigos (SNES e PS1, por exemplo), eu não conseguia rodar mais nada neles. 1GB de RAM, processador Intel Celeron e 100 GB de HD. A tela frequentemente congelava e eu tinha que ficar ligando e desligando, 480p era o máximo que eu conseguia reproduzir naquilo. Sem contar no problema na lombar que eu desenvolvi de tanto ficar inclinado pra assistir série naquela tela minúscula, até hoje sinto dor nas costas em determinados momentos por conta dos anos em que esses netbooks eram a minha única fonte de conexão com a internet..
Hoje, possuo um notbook um pouco melhor; antigo e ainda muito limitado, é verdade. Comprei ele já usado no ano de 2017, e vai fazer 4 anos que está comigo. Eu jogo no console, então nunca me preocupei com rodar jogos nele. Apenas quando me bate a saudade dos clássicos do Super Nintendo ou do Playstation 1. Seu uso se resumiu em baixar séries, filmes e animes, e então reproduzir em 1080p na SmarTV. Também gosto de utilizá-lo para ler artigos, mangás, notícias e assistir alguns vídeos; até 720p ele aguenta o tranco numa boa, o que pra mim é o suficiente. Já passamos por muito: sua placa wireless já queimou, e utilizo um adaptador wifi externo. Para se manter ligado por muitas horas, preciso usar um cooler externo; ele aquece muito, e desliga sozinho se não for auxiliado por refrigeração. Volta e meia seu HD dá umas travadas e congela tudo. Mas eu sou feliz com ele, pois ele faz tudo que eu preciso que ele faça, sem me deixar na mão; e por ter sido o primeiro PC que comprei com o meu próprio dinheiro, eu desenvolvi uma espécie de valor sentimental para com ele. Acredito que só vou comprar um novo computador quando ele partir para as terras imortais..